Especialista aponta influência do mercado financeiro na arquitetura contemporânea
Nos últimos anos, a expressão “casa com cara de casa” ganhou força nas redes sociais, em anúncios imobiliários e até mesmo em buscas na internet. O termo, que à primeira vista parece redundante, revela uma percepção crescente de que muitos imóveis contemporâneos deixaram de transmitir aconchego, identidade e pertencimento.
Segundo a análise apresentada pelo Filipe Boni (um dos fundadores da UGREEN, uma empresa e canal focados em arquitetura sustentável e consultoria ambiental) essa transformação não seria resultado apenas de tendências estéticas, como o minimalismo, mas consequência de profundas mudanças econômicas iniciadas na década de 1990.
A casa como ativo financeiro
O ponto de partida dessa mudança teria ocorrido em 1997, com a criação do Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), instituído pela Lei nº 9.514.
A partir desse modelo, os financiamentos imobiliários passaram a servir de base para títulos financeiros comercializados entre investidores, como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs).
Nesse contexto, a residência deixa de ser vista exclusivamente como moradia e passa a integrar uma carteira de investimentos.
A consequência direta é a necessidade de produzir imóveis facilmente revendáveis, reduzindo características muito específicas que poderiam limitar seu potencial comercial.
Casas cada vez mais genéricas
Para atender a essa lógica de mercado, os projetos passaram a privilegiar soluções consideradas universais.
Entre as principais características apontadas estão:
- fachadas lisas;
- cores neutras;
- plantas integradas;
- ausência de divisões internas;
- lajes escondidas por platibandas;
- telhados aparentes eliminados;
- acabamentos padronizados.
Segundo a análise, quanto menos personalidade possui uma residência, maior tende a ser sua liquidez no mercado imobiliário.
Assim, imóveis são concebidos para agradar ao maior número possível de compradores, ainda que deixem de atender necessidades específicas de determinadas famílias.
O desaparecimento da arquitetura adaptada ao clima brasileiro
O conteúdo também recupera aspectos históricos da arquitetura residencial brasileira.
Durante o período imperial, as casas possuíam quintais produtivos, hortas, árvores frutíferas, criação de animais e áreas destinadas aos serviços domésticos.
Já nas regiões Sul do país, principalmente no Paraná, difundiu-se a tradicional casa de madeira, construída com araucária, dotada de telhados inclinados, grandes beirais, jardins frontais e varandas.
Esses elementos não eram apenas escolhas estéticas.
Eles respondiam diretamente às condições climáticas, oferecendo melhor conforto térmico, ventilação natural e proteção contra chuvas.

(Casas durante o período imperial brasileiro que ocorreu entre 7 de setembro de 1822 e 15 de novembro de 1889)
A economia na obra e o custo para quem mora
Segundo a análise apresentada, muitas soluções adotadas atualmente representam economia durante a construção, mas geram despesas permanentes para os moradores.
A substituição dos telhados convencionais por lajes planas é um dos principais exemplos.
Enquanto o telhado inclinado cria uma câmara de ar que reduz a transferência de calor para o interior da residência e protege as paredes da incidência direta do sol e da chuva, a laje plana absorve calor continuamente, aumentando a necessidade do uso de ar-condicionado.
Além disso, a impermeabilização exige manutenção constante, sendo mais suscetível ao aparecimento de infiltrações.
Na avaliação apresentada, trata-se de uma economia imediata para o construtor, mas de um custo recorrente para quem habita o imóvel.

O quintal deu lugar à varanda gourmet
Outra transformação destacada é a substituição dos quintais pelas chamadas varandas gourmet.
Historicamente, o quintal desempenhava funções produtivas e contribuía para a alimentação da família, além de favorecer o contato com a natureza.
Nos empreendimentos atuais, entretanto, esse espaço é frequentemente reduzido ou eliminado para dar lugar a áreas voltadas ao lazer e à valorização comercial do imóvel.
Segundo Boni, a varanda gourmet tornou-se um importante elemento de marketing imobiliário, agregando valor ao metro quadrado, ainda que represente redução dos espaços funcionais da residência.

O impacto na saúde mental
A pandemia de Covid-19 evidenciou limitações importantes dos projetos habitacionais contemporâneos.
Com milhões de pessoas confinadas em suas casas durante longos períodos, estudos de avaliação pós-ocupação passaram a identificar problemas relacionados à falta de ventilação, iluminação natural, conforto térmico e isolamento acústico.
Entre os relatos mais frequentes estavam:
- estresse;
- cansaço visual;
- piora da qualidade do sono;
- aumento dos sintomas depressivos;
- sensação de confinamento.
Segundo o conteúdo apresentado, ambientes excessivamente artificiais — marcados por superfícies frias, iluminação homogênea e ausência de materiais naturais — mantêm o sistema nervoso em estado constante de alerta.
Em contrapartida, elementos como madeira, pedra, cerâmica artesanal e vegetação estariam associados à redução dos níveis de estresse, fenômeno explicado por estudos ligados à biofilia e à neuroarquitetura.

Sustentabilidade além da estética
O vídeo também questiona o uso superficial do conceito de sustentabilidade na construção civil.
Segundo a análise, soluções verdadeiramente sustentáveis devem considerar fatores como:
- eficiência energética;
- conforto térmico;
- emissão de carbono durante a construção;
- durabilidade dos materiais;
- origem dos insumos.
Nesse cenário, sistemas construtivos em madeira engenheirada, como Wood Frame e CLT (Cross Laminated Timber), são apresentados como alternativas capazes de reduzir desperdícios, diminuir emissões de carbono e acelerar o processo construtivo.
Também são citadas iniciativas brasileiras de produção de blocos modulares feitos com plástico reciclado, capazes de oferecer melhor desempenho térmico e reaproveitamento de resíduos.

(As residências contemporâneas passaram a priorizar espaços voltados ao lazer e à valorização imobiliária. Os antigos quintais produtivos deram lugar a varandas gourmet, áreas compactas e ambientes integrados. Hortas, árvores frutíferas e espaços destinados ao cultivo e à criação de pequenos animais tornaram-se raros, sendo substituídos por soluções padronizadas, pensadas para atender ao mercado e facilitar a comercialização dos imóveis)
A busca por identidade
Ao final, a reflexão proposta é que o crescente interesse por elementos como madeira aparente, tijolos, pedras naturais, telhados tradicionais, beirais e varandas representa mais do que uma tendência estética.
Segundo a análise apresentada, trata-se de uma tentativa de recuperar a sensação de pertencimento e identidade perdida em projetos concebidos prioritariamente para circulação no mercado financeiro.
Nesse sentido, a expressão “casa com cara de casa” simboliza o desejo de voltar a habitar espaços projetados para as pessoas, e não apenas para atender às exigências da lógica de investimento imobiliário.
📍 Fonte: UGREEN
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